Ah sim… Eu sou Charlie…

e sou Ahmed, muçulmano, policia e parisiense

e sou Alexander Mora Venancio, estudante do Magistério Primário, raptado pela Policia em Iguala, Estado Guerrero do México, entregue aos nacro-traficantes e executado, com mais 32 colegas em Cocula

e sou os milhares de assassinados, feridos, raptados, torturados na Palestina e Israel, pelas «Forças de Defesa de Israel”.

e sou Simone Camilli, Hamada Khaled Makat, Mohammed Nour Eddine Al-Dairi, Abdallah Nasr Fahjan,Rami Riyan, Sameh Al-Aryan e Khalid Hamad – jornalistas mortos na Palestina pelas Forças «de Defesa» Israelitas

e sou os quase 5000 migrantes que morreram no Mediterrâneo em busca desesperada de uma vida melhor

e sou os 91 trabalhadores mortos em criminosos acidentes de trabalho em Portugal só no último ano

e sou as centenas de milhares de migrantes constantemente ameaçados de expulsão, mesmo quando vivendo lá decénios, nos EUA

e sou as dezenas milhares de vitimas colaterais nas invasões do Afeganistão, do Iraque, da Siria, da Libia, do Mali

e serei os presos  e multados em milhares de Euros pela aplicação Ley de Securidad Cidadana no Estado Espanhol, que permite à Policia decidir administrativamente se uma concentração ou manifestação é legal

e sou tantos mais, explorados, oprimidos, excluídos , atacados pela ganância do lucro privado e os simulacros de democracias cada vez a aproximarem-se mais, pelo o medo e pelo terror, das ditaduras que dizem-nos que derrotaram.

Encontro a minha na raiz da gente comum um caminho colectivo que rompa o medo e vença o terror. Mas não só o terror dos fracos, porque esse só persiste porque os fortes o alimentam e promovem para nos subjugarem ao medo, para nos render-mos sem Luta.

da névoa desfocada

sob o mote dado pelo meu amigo Manuel Monteiro

Dizes que agora sabes ser névoa desfocada:
Vê se te focas então.

Dizes que, raiz que és, não tens forças para te ligar à terra:
Ganha forças
e entranha-te

Dizes que da migração da ave apenas vislumbras o mesmo território:
Abre as asas e parte,
cerra as asas e chega.

Não te deixes embalar no “nada ser”. Tu és.

Nas tumultuosas épocas que chegam
muitos nos segredam receitas e mezinhas, apregoando supremas sabedorias:
«Escuta o teu “eu”! Fecha o espírito ao reboliço! Nada és, nada podes!»

Mas…
Livra-te do medo
e regressa à terra fecunda dos nossos pais e dos nossos filhos.
E com eles, sempre com eles,
sê a nuvem da tempestade,
sê raíz firmada na terra,
sê ave bêbada de liberdade.

Onde estiveres, com os teus, com os nossos,
Anuncia as tempestades
Que trazem no ventre nova Vida