Coisas da Vida, Poesia

Quando for a hora de acabar…

Quando for hora de acabar,
gostava de ser eu a decidir

A probabilidade
é pequena:
um carro desgovernado
um passeio demasiadamente polido
um tremor de terra –
já devemos ao agitar da terra
uns tempos, dizem –
são tantas as possibilidades
que a hora de acabar
seja súbita
que só posso
pensar
aquelas que menos gosto:

a perca continua de capacidades,
de autonomia,
de lucidez.

E não deixo de pensar
na dor – para além dos trabalhos –
dos que me acompanharam
nesses últimos dias.

Porquê?
Para quê?

Se vim da terra assombrada
do ventre da minha mãe
se nem sequer fui ouvido
no acto em que nasci
gostava de ser eu
a dizer:
Acabou!
Quero parar!
Quero voltar a ser energia
que possa partilhar outras vidas.

Assim, sem crime de quem me ajudar.

Quando for hora de acabar,
gostava de ser eu a decidir.

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Poesia

No chão que me inscrevo

(projecto de auto-retrato)

Sou baixo,
peso demais,
não muito,
mas com uma barriginha visível.

Gosto de cantar,
no chuveiro e fora dele

Sou amigo de amigo
e de muito que não sabe que sou amigo
Faltam-me dentes (…
imensos)

Gosto de rir
Vejo mal ou menos bem

Mas vejo cousas que nem todos vêem…
porque não querem,
ou não sabem olhar
a injustiça
e a obscena pobreza
que grassa num mundo
tão rico

Vivi muito
Passei mal
Cai
Levantei
– com a ajuda de amigos

Cá vou andando,
com a cabeça entre as orelhas,
remando contra a maré,
navegando à bolina
em busca do porto de abrigo
de onde eu possa recomeçar,
ou simplesmente descansar

Não desisto de ser livre
na extensão da liberdade
de todos os que não sabem que o não são

Sou assim

Complicado e simples

É neste chão de vida,
turbulenta e fascinante
que me inscrevo…

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