Legalmente assassinado – 38 anos depois

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Reportagem sobre a absolvição do policia Cunha. Na foto, Falcato Simões

Republico um texto de Mário Dionísio sobre o assassinato de José Jorge Morais às mãos do agente da PSP Amadeu Rocha da Cunha. Este agente, absolvido sem convicção pelo Tribunal, feriu também Jorge Falcato Simões, atingido na coluna ficando paraplégico.

Terá sido ele também que desfez o peito do pé da Dina, uma trabalhadora da limpeza industrial no Ministério das Finanças e activista do Bairro do Caminho do Mocho de Paço d’Arcos? Não sei.

 

Sei que o guarda Cunha defendia Nazis que se manifestavam no Camões. E que, com os seus colegas, optou por não só defender nazis mas atacar,a tiro de G3 anti fascistas, com os nazis a espancar que ficava por terra.

Trinta e oito anos depois, os fascistas do PNR voltam à rua e da resposta popular nem se viu. Eu e uma foto-jornalista de esquerda. Meia centena de fachos, eu sei. E as suas normais provocações. Mas como dizia o Zeca:

JJM

“O fascismo é uma minhoca
que se infiltra na maçã
ou vem com botas cardadas
ou com pézinhos de lã

 

 

 

 

Que a lucidez de Mário Dionísio envergonhe os partidos de Esquerda que hoje ficaram em casa

Legalmente Assassinado

Por Mário Dionísio, Diário de Lisboa, 14/6/1978

Escrevo à pressa, no regresso dum funeral imponente pelo número dos acompanhantes – não tão vasto, contudo, como seria bem legítimo esperar-se – e sobretudo pela dor profunda e contagiosa que o silêncio da massa compacta exprimia.

Escrevo à pressa no regresso desse funeral, onde praticamente só havia povo (povo mesmo) e jovens, muitos jovens de olhos molhados e firmes. Porque não posso deixar de manifestar publicamente e sem demora o meu espanto, o meu protesto, a minha indignação, talvez principalmente o meu desespero por ter sido possível, tão poucos anos depois do 25 de Abril, este crime hediondo: o abater-se a tiro numa rua de Lisboa um jovem de 18 ou 19 anos porque tentou opor-se a uma manifestação inequivocamente fascista, como ninguém honestamente invocará ignorar que ela o seria. Porque tentou impedir que o fascismo volte a erguer a sua voz – e não só a sua voz –, agora já na via pública, neste pobre País tão macerado pelo que sofreu durante quase meio século. Porque tentou evitar que se confunda o símbolo máximo da nossa cultura – Camões – com a barbárie que o botim cardado e o braço estendido sempre representaram.

O meu espanto, o meu protesto, a minha indignação, talvez sobretudo o meu desespero, por ter sido, ao que consta até este momento, a Policia chamada de Segurança Pública a executar o ato monstruoso ou, na melhor das hipóteses, a torná-lo possível, “protegendo” (“protegendo!”) uma manifestação de intuitos transparentes e sem rebuço proclamados, considerada “legal” apesar do que está bem expresso na nossa Constituição (ainda) em vigor. A mesma Polícia que apareceria no dia seguinte à porta de, pelo menos, algumas escolas e na cantina do Ministério da Educação e Cultura de G-3 aperradas, dizendo-se em “simples operação de rotina”!

RI-DA-3-doc50Cumprindo ordens, já se sabe, que é essa a sua função e o seu álibi de sempre. E ordens de quem? Treme-se de magoada surpresa ao pensar em quem poderia tê-las dado e certamente as deu. Que, quanto aos executantes propriamente ditos ou, na melhor das hipóteses, colaborantes, a surpresa será menor ou não existe: não é em vão que, durante meio século, se abrem cabeças à bastonada, se açulam cães, se desfecha o gatilho, mal se ouvem gritos como “Abaixo o fascismo!” O hábito fica e, ao menor pretexto, sobretudo se se têm as costas quentes com as “ordens de cima”, lá vêm os tais “tiros para o ar” que apanham por acaso as pessoas em pleno peito. Como aconteceu agora a José Jorge Morais, que acabo de acompanhar à última morada, embora nunca o tenha conhecido e só dele saiba que tinha 18 ou 19 anos, que era estudante de medicina e que devia odiar tanto essa vergonha da humanidade a que se chama fascismo que, para fazer-lhe frente, deu a vida. Quer dizer, deem-lhe as voltas que lhe derem: deu a vida por nós.

Não me interessa se tinha ou não partido ou a que partido pertencia. Não me interessa se era católico ou ateu. Absolutamente nada. Interessa-me, isso sim, que fez o que pôde e como soube para que o fascismo não avançasse… mais. E que o fez com um espírito de generosidade e de dádiva total, perante o qual qualquer antifascista terá de respeitosamente curvar-se.

Parece que tinha afinal partido e que era católico, já que o enterro foi religioso e certamente lhe terão respeitado as convicções ou crenças.

Quando, no sábado, o crime se deu, estava eu assistindo ao encerramento dos trabalhos da primeira sessão do Tribunal Cívico Humberto Delgado, cuja importância é inútil sublinhar e que, por sinal, o nosso mais poderoso órgão de comunicação social, a RTP, resolveu pura e simplesmente ignorar, assim conseguindo que o País inteiro desconhecesse que, além dos vários tipos de festejos que assinalaram, a propósito ou a despropósito, o dia 10 de Junho, algo se passou naquela casa de velhas tradições de luta que se chama A Voz do Operário.

No momento em que as intervenções foram subitamente interrompidas e se anunciou o que acabava de acontecer no Largo de Camões e na Rua do Loreto, a reação da sala à cunha, repleta muito para lá da lotação, foi imediata e unânime. E estavam ali, como é bom que tenham estado e deveriam sempre estar em qualquer ocasião, antifascistas de todas as tendências, até lá levados pela consciência de que a liberdade está mais que nunca em perigo e de que só a Unidade – no sentido autêntico e honesto da palavra – a poderá salvar. Todos se ergueram da chofre, feridos na própria carne, compreendendo porventura ainda com maior clareza a situação real em que nos encontramos e que não basta pronunciar a palavra “luta” para que luta exista. Isso mesmo terá significado Ruy Luis Gomes ao encerrar a sessão, entre os mais quentes e prolongados aplausos, com a consagrada palavra de ordem: “A luta continua!”

Porque é tempo de entender que o 25 de Abril, com a pureza, o entusiasmo, a ânsia de transformação e de justiça que o levou a efeito, acabou há muito tempo de entender que, em seu nome e de dentro, se está consumando, dia a dia, o regresso, sob outras formas e terminologias diferentes, o regresso aos quadros gerais duma sociedade de que os homens do MFA quiseram libertar-nos para sempre. Que se entrou noutra fase histórica. Que, sob a cortina de fumo de certos espantalhos habilmente manejados, vamos pouco a pouco voltando, se não voltámos já, ao clima que se tornara a dada altura irrespirável e irrespirável se está novamente tornando.

Enquanto os partidos de esquerda (onde começará e acabará hoje a esquerda?) se desentendem e brincam à Unidade. que é o mais perigoso dos jogos se não se toma a sério, o fascismo, não interessa com que nome ou nomes, organiza-se, infiltra-se, cresce, aceita a mão que lhe estendem, instala-se civilizadamente ou ataca selvaticamente na rua com a proteção das “forças da Ordem” chamada «democrática».

Entretanto, um jovem de 18 ou 19 anos caiu para sempre por repelir o fascismo e porque, nas circunstâncias dadas, defender o fascismo era “legal” e ilegal atacá-lo. Não foi o primeiro, não será o último.

Teremos bem a consciência do que isto significa – no nosso presente e no nosso futuro?

 

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Entendo-te

Ao  ser “provocado” pela Fernanda Guadalupe

Direi que te entendo, mas é uma forma de dizer que nada sei de construção ou desconstrução de cidades.
Sei que também eu, novinho, sonhava com florestas. Eram florestas longínquas onde se degladiavam os ‘bons‘ e os ‘maus‘. Como nas pradarias da minha meninice os cow-boys batiam aos tiros as flechas dos índios. Quando a subida dos degraus da vida me deu para perguntar porquê, dei comigo a sentir que tomava partido ao contrário do que me diziam os filmes, os telejornais e quase todos os amigos.

O meu pai, homem da arte de trabalhar madeira, entre silêncios pensativos e rasgados sorrisos, ensinou-me a perguntar o porquê das coisas. Para ele, a terrível idade dos porquês, foi, imagino, um constante gozo e desafio. E ao ensinar-me a pensar o porquê das coisas, ensinou-me com a sua arte, a fazer ou, pelo menos, tentar.

Essas foram dádivas grandiosas, como são todas as coisas que os pais partilham com os filhos.

Algumas vezes, aprendi cedo, as perguntas são incómodas. Outras, aprendi mais tarde, não têm resposta senão o constante desafio de as procurar.

Foi então que um dia, tinha para aí 12 ou 13 anos, descobri que a floresta longínqua com que sonhava, seriam as matas da Guiné ou as selvas da Indochina.

Foi-me fácil admirar os vietcongs: quando apareciam, fugidios, na TV, eram pequeninos – como eu – e tinham armas quase que a brincar – como as que costumava brincar em criança.

Difícil foi escolher o lado em que queria estar nas matas da Guiné, ou nas savanas de Angola, ou nas terras de Moçambique. Quem lá estava eram eles e os nossos. E via os nossos nos Natais, “Soldado nº190082-71 deseja aos seus pais, irmãos tios e primos uma Feliz Natal e um Ano Novo cheio de propriedades”, e os 10 de Junho, “Medalha da Cruz de Cristo de 1º classe atribuída ao Furriel Miliciano António” e avançava um menino, de calções para um grupo de Generais e tocava o clarim…”.
Os meus índios perdiam-se nesta batalha entre o que me era dito e os porquês que ninguém me queria responder…

Felizmente, tive o privilégio de viver a mudança, onde as coisas perguntadas, já não o eram a medo, onde todos procuravam respostas, onde o anónimo suspeitou que algo de impensável poderia fazer-se se o anónimo, saísse do anonimato, pensa-se em voz alta, procurasse parceiros.

Por algum tempo, cada um foi actor de um drama que se desenrola desde a idade das eras, mas apenas por breves lampejos, a multidão participa.

E lancei-me, sem reservas, na tentativa do fazer.

Outros tempos vieram, e a diáfana teia do dia-a-dia, remeteu ao anonimato as pessoas, reerguendo as elites aos seus lugares.

Muitos dos que perguntavam o porquê, passaram a doutrinar “Porque sim!”.

Mas a maioria esqueceu que pode – e deve – perguntar o porquê…

Muitos do que queriam fazer, passaram a defender o manter, o regressar.

Eu, com muitos outros, continuámos a tentar fazer, contra-corrente, desesperámos, tentámos, falhámos, e até hoje, desesperamos, tentamos, falhamos…

E os dias decorreram entre os “dias loucos” e o “fim da história” e aqui estamos à beira do quê?

As certezas de ontem são a miséria que se espalha hoje, mas mostram-nos como xamãs os que deliberadamente nos fizeram percorrer o caminho até aqui.

É nestas altura que procuro partilhar as dádivas que recebi de meu pai: perguntar porquê e tentar fazer.

Hoje, sei que há perguntas que ainda requerem tempo…
Mas tempo é ainda o que tenho…

Por isso, apesar de nada saber de construção ou desconstrução de cidades, creio que te entendo…

Devagar

Devagar,
retomo o dia a dia peregrino.
Hoje,
como ontem,
talvez como amanhã
redesenho
passos sonâmbulos,
voltas bêbadas,
percursos mistério
Ando por aí
procurando
nos outros
o eu que me falta

Devagar
regresso
às coisas que passam
aos espaços que se esfumam
nestes dias de regresso,
sem regresso,
de onde não quero regressar