Que viva a Comuna 

Há poucos dias passou o 146º aniversário da tomada do poder pelos proletários de Paris, face à miséria de vida e à traição das classes dirigentes.
Face à miséria geral e à guerra franco-prussiana, face às manobras de traição das instituições estatais, os proletários “assaltaram o céu.”

Esta ilustração, que celebra a Comuna, liga a um excelente artigo de Niall Mulholland, do Secretariado Internacional do Comité Por uma Internacional dos Trabalhadores, publicado pelo Socialismo Revolucionário.

Que viva a Comuna!

 

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Há o valor da Liberdade, sim…

A minha amiga Isabel Faria, nas suas breves crónicas, publicadas no seu FB (saudades do Troll Urbano), continuar a deliciar, desafiar e reflectir a esquerda.

Publicou hoje uma pequena crónica sobre Essone, e a experiência dos seus pais, emigrados.

Essone, então bastião do PCF e onde recentemente a direita ganhou. A finalizar a sua crónica diz:

“Ontem, parece que pela primeira vez, a Direita ganhou Essone.

O meu pai teria ficado triste. Entào mas se Essone sabia o valor da liberdade…”

A perplexidade que Isabel nos coloca é um ponto fundamental para saber, na confusão dos tempos que correm, reorientar caminhos e ideias para a luta permanente dos explorados contra os exploradores.

O meu contibuto:

Marvila2

Há o valor da Liberdade, sim. Mas há também o valor da Alienação.

Essa, produzida pela classe dominante para perpetuar o seu “direito natural“, amarra as classes dominadas se a luta ideológica entre explorados e exploradores não for constante.

Infelizmente, os velhos partidos proletários abandonam essa luta e as novas formações surgem mais da radicalização de sectores intermédios que dá recomposição das forças proletárias.

Daí as constantes armadilhas das “cidadanias“, das “democracias virtuais“, da “soberania de esquerda“, da “Europa dos Povos”…

A liberdade burguesa é a “liberdade económica”, isto é, a total falta de regulação do Estado nas suas relações com os proletários, – seguida, evidentemente do “segredo comercial”, ferramenta fundamental para a luta pela hegemonia dos grandes grupos económicos;
é a “liberdade de expressão” dirigida pelos grandes meios de comunicação que são, obviamente, propriedade dos grandes grupos económicos;
é a “liberdade de circulação de capitais” com a destruição de barreiras alfandegárias entre a desenfreada competição inerente ao sistema capitalista – e o controlo da circulação de pessoas – Shegen, a migração africana, as leis “anti-terroristas”… enfim, tudo o que lhes permite revestir de democrático a sua ditadura sobre as amplas massas.

Para a Esquerda, a liberdade pode estar sintetizada numa canção do PREC:

“Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir,
quando pertencer ao povo 
o que o povo produzir”

É a tarefa da Esquerda transpor para o quotidiano essa ideia, para a massas dos trabalhadores explorados e jovens alienados dos gigantescos bairros sociais e pobres este sentir e esta ideia, com actos culturais, políticos e sociais que os arranque da ideologia dominante e reconstrua o sentido de classe e a a consciência politica.

Não é, apenas, a busca do voto, 4 em 4 anos, não é a acomodação e melhoramento ao sistema, mas semear a organização e a luta, enfim a revolta consciente que exiga, sim reformas, mas saiba firmemente que

“Só há liberdade a sério quando
quando pertencer ao povo 
o que o povo produzir”

Ah sim… Eu sou Charlie…

e sou Ahmed, muçulmano, policia e parisiense

e sou Alexander Mora Venancio, estudante do Magistério Primário, raptado pela Policia em Iguala, Estado Guerrero do México, entregue aos nacro-traficantes e executado, com mais 32 colegas em Cocula

e sou os milhares de assassinados, feridos, raptados, torturados na Palestina e Israel, pelas «Forças de Defesa de Israel”.

e sou Simone Camilli, Hamada Khaled Makat, Mohammed Nour Eddine Al-Dairi, Abdallah Nasr Fahjan,Rami Riyan, Sameh Al-Aryan e Khalid Hamad – jornalistas mortos na Palestina pelas Forças «de Defesa» Israelitas

e sou os quase 5000 migrantes que morreram no Mediterrâneo em busca desesperada de uma vida melhor

e sou os 91 trabalhadores mortos em criminosos acidentes de trabalho em Portugal só no último ano

e sou as centenas de milhares de migrantes constantemente ameaçados de expulsão, mesmo quando vivendo lá decénios, nos EUA

e sou as dezenas milhares de vitimas colaterais nas invasões do Afeganistão, do Iraque, da Siria, da Libia, do Mali

e serei os presos  e multados em milhares de Euros pela aplicação Ley de Securidad Cidadana no Estado Espanhol, que permite à Policia decidir administrativamente se uma concentração ou manifestação é legal

e sou tantos mais, explorados, oprimidos, excluídos , atacados pela ganância do lucro privado e os simulacros de democracias cada vez a aproximarem-se mais, pelo o medo e pelo terror, das ditaduras que dizem-nos que derrotaram.

Encontro a minha na raiz da gente comum um caminho colectivo que rompa o medo e vença o terror. Mas não só o terror dos fracos, porque esse só persiste porque os fortes o alimentam e promovem para nos subjugarem ao medo, para nos render-mos sem Luta.

Foi quase há 40 anos o golpe militar de 25 de Abril de 1974.

E o asfaltoDe podre e letal, o fascismo caiu com sopros (tirando os 4 executados pelos PIDEs nessa tarde luminosa como cantou a poeta, seguramente desconhecendo esse drama).

Bem se esforçou o MFA em confinar a «população em casa». Melhor sorte teve com a PSP e a GNR que salvo no Carmo, onde os ratos se refugiaram, perderam, em horas a conhecida selvajaria com que tratavam o povo. Mas as ruas se inundaram de operários, empregados de comércio, estudantes – de todas as idades – primeiro tímidos, depois rasgando as comportas que os oprimiam há tanto, tanto tempo.

Nem de isso tinham consciência, mas por todo o lado, Calvário, Xabregas, Benfica, Algés, Arroios, Alfama, saíram ribeiros circulando rem ruas ontem vigiadas desaguando em rios no Carmo, espraiando-se pela Cidade, lavando-a do tom cinzento do medo. Era a Revolução.

Na corda bamba entre a Liberdade e a continuidade, os patibulares Salvadores Nacionais queriam outra coisa, mas não conseguiram. E os militares rebeldes, atónitos, viam a Cidade, as vilas as aldeias, a crescer de uma coisa estranha e tão presente, uma massa de actores que nunca tinham tentado, sequer, ter domínio das suas vidas.

A alegria cresceu, desmesuradamente em Maio, no seu Primeiro, ontem dia de luta de rua e medo nas casas. E as perguntas: que queremos nós das nossas vidas, que queremos nós do nosso país?

Os generais ainda tentaram tudo manter na «ordem». Mas a guerra que não queríamos não era já silenciada com “votos de Boas Festas e um Ano Novo cheio de «propriedades»”  e desfiles marciais com órfão de medalha ao peito. NÃO! Nem mais um só operário ou camponês para morrer numa guerra injusta lá longe, em África. África para os Africanos!Nem mais um só, soldado prás colónias!

E nas fábricas? Foi a natural caça ao bufo, a exigência colectiva de serem tratados como gente, o «baixar da grimpa» aos capatazes e chefes que se escudavam com a repressão e o medo da PIDE. Alguns distraídos, ainda tentaram remar contra a mará que estava a levantar.

Os pobres, nos bairros e nas gigantescas ilhas de barracas que circundavam as cidades, tomaram para si o que muitos deles construíram, ocuparam casas prédios, criaram creches e continuaram – sem medo da vinda da GNR – a sacar electricidade à CRGE para poder mudar um pouco as suas vidas.

Muitos artistas, escritores, pintores arquitectos passaram, alguns deles por breves momentos, a barreira  invisível que separava a «cultura» da pessoa comum.

E os aeroportos viram um inusitado vai e vêm. O Vai dos protegidos pelos 38 anos do Estado Novo, as famílias Espirito Santo, os Champalimaud, os Vinhas e Britos. Os Vem os Chunais, Soares, mas muitos outros, anónimos que deram o salto para a Europa que fez, tantos a tantos anos, de cega para este «jardim à beira mar plantado de viúvas e órfãos, e pobreza e prisões” porque o Botas colou-se à NATO na sua cruzada imperial.

Não tardou as «vozes de moderação», contra «as greves selvagens», amedrontado com o «regresso das forças fascistas».  E eis que o Governo aumenta o salário mínimo. Temos salvador… tropeção daqui e dali, o velho General a quer mandar, legionários e pides a reorganizarem-se , veio Setembro e as barricadas, veio Março e as nacionalizações, pelo meio quem trabalhava a terra a ocupá-la. A coisa pareceu tão certa que o TIMES clamava, horrorizado: «O Capitalismo Morreu em Portugal!». Não morreu mas levou uma sova do catano. Construíu-se então um salvador aliando o «povo» ao EMEFEÁ. O Povo está com EMFEAÁ.

A custo, os trabalhadores foram perdendo a ideia, que podiam construir, eles próprios, o futuro.

A sociedade polarizada, com a social-democracia a armar pides e legionários, Norte e Sul em crescente divisão, e naturalmente o partido da «ordem» a ganhar terreno no EMEFEÁ … Nove deram a cara, mas por detrás a Alemanha , os EUA, a CIA e os caceteiros do Rio Maior, a Maria da Fonte do Cónego Mello, as manobras do Carllucci que se tinha preparado no Chile de Allende para pôr no poder pelo massacre o tenebroso Pinochet .

Do outro lado, aprendendo a democracia, as Comissões de Trabalhadores, e de Moradores, o deliberado desrespeito pela «ordem» que queria repor os privilégios, a ânsia por um mundo novo. Deste lado, havia vontade e potencial , faltava lucidez e organização.

Estive lá , jovem deslumbrado, nunca neutro, nesta ancestral luta entre explorados e exploradores. Tantos que ao meu lado estavam e hoje fazem o seu mea culpa dos «excessos e anarqueriada» para justificar os ordenados chorudos as prebendas que desde então acumulam. Alguns no governo. Outros dirigentes das Associações patronais, outros ainda, tantos, que da Voz do Povo passaram a Voz do Dono …

Novembro chegou e ficámos em casa, confiando no futuro.  Mas, o futuro é agora.

Agora há que reinventar Abril dos bairros e empresas onde a democracia viveu.