Brisa

capuchos_1A brisa vespertina desliza na falésia
e as terras que sonham a água.
Os odores da terra e dos seres
as folhas dançam vagamente
em embriaguez de Verão tímido

Um dia voltarei ao Convento

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No chão que me inscrevo

(projecto de auto-retrato)

Sou baixo,
peso demais,
não muito,
mas com uma barriginha visível.

Gosto de cantar,
no chuveiro e fora dele

Sou amigo de amigo
e de muito que não sabe que sou amigo
Faltam-me dentes (…
imensos)

Gosto de rir
Vejo mal ou menos bem

Mas vejo cousas que nem todos vêem…
porque não querem,
ou não sabem olhar
a injustiça
e a obscena pobreza
que grassa num mundo
tão rico

Vivi muito
Passei mal
Cai
Levantei
– com a ajuda de amigos

Cá vou andando,
com a cabeça entre as orelhas,
remando contra a maré,
navegando à bolina
em busca do porto de abrigo
de onde eu possa recomeçar,
ou simplesmente descansar

Não desisto de ser livre
na extensão da liberdade
de todos os que não sabem que o não são

Sou assim

Complicado e simples

É neste chão de vida,
turbulenta e fascinante
que me inscrevo…

Assim vão os tempos

Assim vão os tempos,
incertos, turbulentos,
escorrendo as iras das vinhas por vindimar

Assim vão os tempos

Não se vislumbram heróis,
mas muitos vilões se perfilham
no torvelinho dos dias

Nestes tempos, contudo,
muitos dizem: não!

Nestes tempos, contudo,
Experimentam-se, novamente,
outros caminhos

Nestes tempos, contudo,
agregam-se
sonhadores,
e poetas,
e desesperados,
emulheres, homens e gente de todos os outros géneros
e negros, e brancos e de outras cores
enfim
gente surpresa do seu despertar
da névoa da alienação

Nestes tempos, assim
recusamos heróis,
entrelaçamos mãos e vontades
construímos teias de solidariedade.

Cuidai-vos, pois, vilões
Outros tempos estão para vir