Estou aqui…

A Coisa -IEstou aqui, sentado, neste café vazio, o olhar a pairar não sei bem onde e a sombra do entardecer a deslizar entre mesas e cadeiras.

O aroma do café, já bebido, funde-se com o grão recentemente moído num ruído enervante que mitigou brevemente o silêncio que paira por aqui.

No balcão o dono, velhote, tenta esconder a sonolência limpando pela enésima vez a montra desprovida de salgados e doces, esvaídos pelas vorazes horas dos almoços apressados dos que não tem tempo, ou dinheiro, para os almoços com que sonham.

Estou aqui sentado, neste café vazio, sabendo que serão longas as horas de solidão que se avizinham. A casa despida de vida não me parece o porto de abrigo com que almejo. Nem as ruas, com a penumbra a trasvestir-se rapidamente de escuridão e solidão.

Como cheguei aqui, pergunto-me. Mais ainda, como sairei daqui?

A minha vida tem sido de partidas e chegadas a lado nenhum. Tenho perto de 60 anos e vivi intensamente, mas estou cansado. E a vaga e persistente sensação que A Coisa ainda irá acontecer.

Estou aqui, sentado, neste café vazio, o olhar a pairar não sei bem onde e a sombra do entardecer a deslizar entre mesas e cadeiras.

Espero A Coisa.

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Palavras que o vento não pode levar

Reproduzo aqui um texto de uma amiga, Isabel Faria,  de lutas de alguma data.

O texto, partilhado no Facebook, trás-nos uma inquietação, uma impossibilidade quase que epidérmica, de não recordar-mos algo da nossa vida,mas mais que isso de imaginar o que nos querem reservar como futuro e estão a fazer a tantos de nós. Como dizia o canto: “Vemos, ouvimos e lê-mos… Não Podemos Ignorar”

Conta-nos a Isabel:

Quando o meu filho veio viver comigo (nos primeiros anos, foi impossível conciliar os meus horários com qualquer infantário (e dinheiro para o pagar) e ele ficava com os meus pais), vivíamos em Oeiras.
Nunca tivemos muito dinheiro, mas sempre foi dando para viver.
Um dia, inicio de um mês, dia 2 ou 3, a caminho do infantário,o meu filho pede-me para lhe comprar um Pokemon. Disse-lhe que não dava e que teria que esperar para o final do mês. “hiiii, falta tanto, mãe”. “Mas tem que ser João Pedro…”. O meu filho abanou com a cabeça que sim.

Ao final do dia, ia buscá – lo ao Castelinho, ali ao lado da linha de comboio de Paço de Arcos, e, algumas vezes, iamos a um pequeno mini-mercado mesmo ao lado de casa. Nesse dia, na manhã do Pokemon adiado, assim fizemos. Do outro lado da loja, meio escondido entre prateleiras, foi curto o tempo em que as prateleiras o esconderam (crescem tão depressa os nossos meninos), mas ainda escondiam, ouço a vozita do meu filho gritar “mãe, tu disseste que não havia leite…podemos comprar agora ou esperamos para o fim do mês?”. Perante o olhar incrédulo das nossas vizinhas, nos inícios dos anos 90 ainda havia classe média, disse-lhe que sim. Leite podíamos comprar. “Uma coisa inteira, mãe?”. Forte como os meninos são quando querem ajudar as suas mães, o meu filho pegou numa palete de pacotes de leite e colocou no cesto.

Hoje, ao almoço, fui ao Pingo Doce. Um menino, da idade que então o meu menino tinha, agarrado à mãe, perto da prateleira das bolachas pergunta-lhe se pode levar um pacote de bolacha Maria. Com olhar triste e voz baixa, a mãe diz-lhe que não. Hoje só podemos levar pão, Diogo. Talvez daqui a uns dias quando receber o subsidio…comes pãozinho, tá bem? O menino abanou com a cabeça que sim.
Mesmo sem querer. levada àquele final de tarde a Oeiras, olhei o cesto. Além de um pão pequeno, havia um pacote de leite.

Quanto tempo terá o Filipe que esperar por um Pokemon?

Isabel Faria via FB

Partidos, “independentes” e anti-partidos

Há tempos a esta parte cresce – ou pelo menos agita-se muito – a ideia que a solução dos nossos males sociais, económicos, politicos, culturais está nos “políticos“, que “são todos iguais“, que se “o Povo não votar eles aprendem“…

Quero, pois contar-vos uma história.

Em finais dos anos 60, andavam eu na Escola Preparatória Conde de Oeiras. Morava em Paço d’Arcos e ia de comboio até Oeiras.

Um dia, creio que foi num dia de Outono, mas não tenho a certeza, ao chegar à estação de Oeiras, descendo eu a rampa da passagem subteranea, dou de caras com um papel caido, com um desenho engraçado. Miudo, abaixo-me e apnho o papel. Nem tive tempo de o ver bem.

Um poderoso estalo surgiu do nada e um tipo cinquentão, forte que nem um touro, grita comigo: “Larga essa porcaria já!“.

Espantado, assustado, mas acima de tudo revoltado, fiz o contrário daquilo que os meus pais me ensinaram para as coisas do dia a dia, respondi ao sujeito: “Quem é o senhor? O meu pai não me bate…”

Novo valente estalo faz a minha cabeça bater na parede. As pessoas que passavam resmungam, na memória uma voz “Deixe lá o miúdo!” dito de forma contida, um tom abaixo do grito.

O “touro” virou-se para o grupo que descia da plataforma, alguém, creio que uma senhora, dá-me a mão e desce apressada a rampa. Em lágrimas cerro o punho da mão livre, o papel com o desenho guardado sem que me preceba.

Do episódio, ficou um “galo na testa” e o papel. Há tardinha, quando chegei a casa, pela primeira vez ouvi falar em “eleições“, em “ter cuidado quando se apanha esses papéis” e mais um ou outro tema que me marcaram a vida.

Depois veio o 25 de Abril, o 28 de Setembro, o 12 de Fevereiro, o 11 de Março… As pessoas comuns queriam ter o direoto de decidirem a sua vida, de escolherem, de mudarem, de ter dignidade na vida. Tinham ideias diferentes, meios diferentes de agirem, projectos que pareciam contraditórios. E havia, claro, os que queriam regressar a antes de Abril. Muitas vezes, a coisa acabava ao estalo. Outras, nem por isso…

Mas em Abril de 75, fui com os meu pais à Junta de Freguesia: pela primeira vez, com 54 e 52 anos, o meu pai, ferroviário, a minha mãe, doméstica, escolheram, votaram. Impressionou-me ver as lágrimas e o sorriso do meu pai ao sair da Junta.

Vitória, vitória, acabou a história.

Bem, não acabou. Agora, o discurso do “não votar“, do “são todos iguais” faz-me cada vez mais pensar no “touro“. Não me dá estalos, não me parte a cabeça. Mas abre campo para a justificação da supressão dos partidos, das eleições livres, da participação.

Não se revêem nos actuais partidos? Bem, é natural. Os partidos, tal como as pessoas, nascem, crescem, definham, morrem. Servem para representar interesses colectivos.  Está bem. Envolvam-se, discutam, organizem-se, partilhem ideias e propostas. Ajam.

Mas por favor, não fechem a porta à vossa própria Liberdade.

Espanto

Barco do Barreiro, esta manhã

Uma menina, 5 anos, descobre a travessia do Tejo. Insiste em por o cinto de segurança, pergunta pelas bóias de sinalização, aprende sobre as estradas do mar, interroga sobre as areias e os peixinhos.

Os olhos luminosos, brilham e sorri, sorri muito.
O pai, embevecido, vai-lhe respondendo e ouvindo as descobertas maravilhadas, a gargalhada de puro gozo com que a pequenita sente a breve ondulação que atinge o barco.

Num constante tagarelar, a criança, em todo ocaso, não grita como é tão usual.

A sua vozita dança em emoções de descoberta, e no entanto, a pertinência das perguntas, as observações que faz, continuam a captar-me a atenção.

A mim e a outros.

Meio a ler o jornal, meio atento à criança, aproximamo-nos de Lisboa.

De repente, uma exclamação “Piratas!”

Tão pequenita e já conhece o Gaspar ..!” espanto-me, olhando para o Ministério das Finanças que se sobrepõe à Estação Fluvial.

Mas a pequena olha para outro lado.

Ah – esses piratas…!

Conversas trocadas

 

 

 

“Isto está impossivel…”
“O nove está na linha errada…”
“Não há nada a fazer…”
“Olha bem para a coisa a resposta está aí…”
“Impossível!”
“Impossível…? Nunca!”
“Estás bom é para alguns…”
“Ah..Ah… o nove é aqui…”
“Sempre os mesmos já cansa…”
“De 1 a 9 nas linhas e colunas …”
“Eles lá sabem com que linhas se cozem…”
“E nós contentamos-nos com migalhas …
“Impossível é viver assim..”
“E que queres… são todos iguais…”
“São iguais a quê…?”
“Andas distraído…?”
“Não. O barco atracou”
“Adeus”