Brisa

capuchos_1A brisa vespertina desliza na falésia
e as terras que sonham a água.
Os odores da terra e dos seres
as folhas dançam vagamente
em embriaguez de Verão tímido

Um dia voltarei ao Convento

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Estou aqui…

A Coisa -IEstou aqui, sentado, neste café vazio, o olhar a pairar não sei bem onde e a sombra do entardecer a deslizar entre mesas e cadeiras.

O aroma do café, já bebido, funde-se com o grão recentemente moído num ruído enervante que mitigou brevemente o silêncio que paira por aqui.

No balcão o dono, velhote, tenta esconder a sonolência limpando pela enésima vez a montra desprovida de salgados e doces, esvaídos pelas vorazes horas dos almoços apressados dos que não tem tempo, ou dinheiro, para os almoços com que sonham.

Estou aqui sentado, neste café vazio, sabendo que serão longas as horas de solidão que se avizinham. A casa despida de vida não me parece o porto de abrigo com que almejo. Nem as ruas, com a penumbra a trasvestir-se rapidamente de escuridão e solidão.

Como cheguei aqui, pergunto-me. Mais ainda, como sairei daqui?

A minha vida tem sido de partidas e chegadas a lado nenhum. Tenho perto de 60 anos e vivi intensamente, mas estou cansado. E a vaga e persistente sensação que A Coisa ainda irá acontecer.

Estou aqui, sentado, neste café vazio, o olhar a pairar não sei bem onde e a sombra do entardecer a deslizar entre mesas e cadeiras.

Espero A Coisa.

Acerca da “pureza da esquerda”

PuraRui Vieira Nery publicou no FB o texto “A esquerda ‘pura’ e os infiéis”.

Nele, descreve os processos eleitorais franceses desde 2002, com triunfo do “voto útil” para barrar a Front Nacional.

Critica aquilo que chama a “esquerda pura” por se ter recusado a apelar no voto em Macron contra Le Pen. Transcrevo aqui os dois últimos parágrafos:

” Em 2017, a “pureza” de uma certa esquerda faz com que Marine Le Pen (tão neo-fascista como o papá mas de verniz mais urbano) parta para as eleições legislativas numa posição de vantagem assustadora. E a perda de autoridade moral inerente à recusa do apoio à única candidatura anti-fascista descredibiliza de tal forma esta esquerda “pura” que quando ela se procurar opor – como é essencial que faça – à feroz plataforma política neo-liberal de Macron no espaço próprio para o fazer, que é o das próximas eleições parlamentares, corre o risco de ter alienado, porventura para o próprio Macron, sectores fundamentais do eleitorado que deveria ter sido capaz de mobilizar.

Se isso acontecer, a esquerda “pura” já conhece a resposta-padrão: a culpa terá sido das “impurezas” alheias. Que bom que é ter sempre a consciência limpa…!

Para quem o combate político se resume a “jogar no quadro” de institucional, neste caso e explicitamente “as eleições parlamentares”… Para ele, o único espaço politico legitimo para a massa dos franceses e, implicitamente dos portugueses, é o espaço eleitoral.

Claro que a “pureza” é absolutamente impraticável no comércio feroz da gestão da coisa pública tendo como trave mestra a apropriação privada dos meios de produção.

Já para os que olham a sociedade com produto da luta de classes as coisas nada tem a ver com pureza.

  • Tem a ver com as dinâmicas sociais, as políticas concretas de regressão social que social democracia tão alegremente aplicou ou aceitou serem implementadas e arrastaram milhões de explorados para as garras da demagogia das Le Pens e Trumps de hoje.
  • Tem a ver com o colapso do “socialismo real” que – apesar de ser uma grosseira deformação da Democracia Soviética – funcionou durante decénios como foco de esperança e motivo de luta dos explorados e travão aos exploradores e que forçou o capitalismo a ceder à luta organizada dos trabalhadores o chamado “estado social” que tem vindo, no último período, a desmanchar.

  • Tem a ver com a degeneração dos partidos tradicionais dos trabalhadores, pressionados para se integrarem no “comércio politico institucional” e cujas direcções combatem com mais vigor a esquerda, como “irrealista“, “impaciente” e mesmo “provocatória” mas assumem como virtude o “cretinismo parlamentar“, como que se, – no quadro das actuais relações de classe -, a via parlamentar pudesse alterar significativamente as condições dos trabalhadores e demais explorados e oprimidos; essas direcções, ao venderem esta ideia – e ao falharem, obviamente – alienaram ou podem alienar uma parte dos trabalhadores para o xenófobos, o racismo e a demagogia fascizante.

Foi isso que se passou com o PCF que viu a massa do seu eleitorado a deslocar-se para a FN, como no caso de Marselha, a outrora Marselha Vermelha. Felizmente, a extrema direita é extremamente débil em Portugal. Mas isso pode alterar-se subitamente. O fenómeno Marinho Pinto mostrou o potencial de propagação de movimentos populistas.

É neste quadro que que se torna fundamental uma análise que é sendo pura, seja pelo menos clara na descrição dos processos que se vivem, as tendências possíveis e, com base nisso,  formule um programa de acção que reúna os diversos núcleos de combatentes de classe, que recomece o reagrupamento dos sectores mais conscientes e combativos e recomece o processo de intensificar de unificar as lutas dos explorados por um mundo sem a exploração do homem pelo homem.

Alguns sinais desse processo parecem despontar, por todo o lado: o amplo movimento pelo aumento do salário mínimo nos EUA, a resistência ao Governo Temer no Brasil, a luta vitoriosa de massas contra a taxa de água, imposta pela troika, na Irlanda, o próprio movimento França Insubmissa, a luta nacional e internacional dos Estivadores.

Mas para que esse processo se desenvolva é necessário combater os argumentos do medo, do mal menor ou da razoabilidade de um capitalismo que não consegue sobreviver à sua própria crise sem intensificar a degradação material das massas e a destruição ambiental.

São esses os argumentos que estão a sustentar a geringonça, que alegremente continua a provar pacotes de austeridade – com o silêncio ensurdecedor dos seus apoiantes parlamentares – a adiar o cumprimento das promessas o PS sobre a reposição dos direitos roubados aos trabalhadores e à população.

O mundo vive uma época de profunda instabilidade politica, económica e social. Fingir que tudo pode correr bem, sem alertar dos reais perigos que se avizinha abre o campo a Le Pens e Trumps.

Mas a visão institucional e moralista de Nery não ajuda ninguém menos os mesmo de sempre. Numa coisa Nery acertou: somos muitos os infiéis do Capital,

O velho de 100 anos “Socialismo ou Barbárie” tem cada vez mais sentido nos dias que correm

O caso Jobstwn

Jobstown Not Guilty leaflet

18 activistas, entre os quais Paul Murphy, deputado do Socialist Party, Irlanda estão acusados de “prisão ilegal” da ex-vice-primeiro ministra irlandesa e enfrentam a pena de prisão perpétua.

Esta é uma clara tentativa da classe dominante irlandesa de criminalizar os protestos e lutas do trabalhadores e jovens irlandeses. A ter sucesso pode ser uma experiência a ser seguida por outros governos…

QUE SE PASSOU

15 NOVEMBRO DE 2014

Na sequência da luta contra o duplo imposto da água, a taxa de água imposta pela troica FMI/CE/BCE, centenas de manifestantes espontaneamente fizeram um sit-down em Jobstown e protestaram contra a então vice-primeiro ministra Joan Burton. A viatura ministerial ficou bloqueada durante 2 horas e meia

Fevereiro de 2015

Vários raides das forças de segurança, durante 2 semanas, integrando 6, 8 ou 10 Gardai (equivalente à nossa GNR) levaram à detenção de manifestantes, entre os quais um jovem de 16 anos. Em acções separadas foram presos outros activistas da camapnha contra a taxa de água.

O correspondente criminal da RTE (televisão estatal irlandesa) divulgou um artigo que segundo informações da Gardai esses manifestantes seriam acusados de prisão ilegal de Joan Burton e do seu assistente

28 Agosto de 2015

Foi revelada a Operação Mizen, uma operação se vigilância ilegal da Garda contra activista contra a Taxa de Àgua, incluindo o deputado do Socialist Party, Paul Murphy

14 de Setembro de 2015

Intimações entreges pela Gardai. Numa reunião dos acusados foi formada a Campanha #JobstownNotGuilty

2 de Novembro de 2015

Um Juiz de um Tribunal Distrital decidiu enviar o processo para o Tribunal Criminal de Circulo com a acusação a pedir penas de prisão perpétua.

19 de Setembro de 2016

Começa o julgamento do jovem, agora com 17 anos, acusado de prisão ilegal.

26 de Outubro de 2016

O jovem foi considerado culpado, aguardando sentença

QUE SE ESTÁ A PASSAR

24 de Abril de 2017

O primeiro grupo de acusados começará a ser julgado

Sê Solidário!

Fonte: #Jobstpwnnotguilt