A Coisa -IEstou aqui, sentado, neste café vazio, o olhar a pairar não sei bem onde e a sombra do entardecer a deslizar entre mesas e cadeiras.

O aroma do café, já bebido, funde-se com o grão recentemente moído num ruído enervante que mitigou brevemente o silêncio que paira por aqui.

No balcão o dono, velhote, tenta esconder a sonolência limpando pela enésima vez a montra desprovida de salgados e doces, esvaídos pelas vorazes horas dos almoços apressados dos que não tem tempo, ou dinheiro, para os almoços com que sonham.

Estou aqui sentado, neste café vazio, sabendo que serão longas as horas de solidão que se avizinham. A casa despida de vida não me parece o porto de abrigo com que almejo. Nem as ruas, com a penumbra a trasvestir-se rapidamente de escuridão e solidão.

Como cheguei aqui, pergunto-me. Mais ainda, como sairei daqui?

A minha vida tem sido de partidas e chegadas a lado nenhum. Tenho perto de 60 anos e vivi intensamente, mas estou cansado. E a vaga e persistente sensação que A Coisa ainda irá acontecer.

Estou aqui, sentado, neste café vazio, o olhar a pairar não sei bem onde e a sombra do entardecer a deslizar entre mesas e cadeiras.

Espero A Coisa.

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