E o asfaltoDe podre e letal, o fascismo caiu com sopros (tirando os 4 executados pelos PIDEs nessa tarde luminosa como cantou a poeta, seguramente desconhecendo esse drama).

Bem se esforçou o MFA em confinar a «população em casa». Melhor sorte teve com a PSP e a GNR que salvo no Carmo, onde os ratos se refugiaram, perderam, em horas a conhecida selvajaria com que tratavam o povo. Mas as ruas se inundaram de operários, empregados de comércio, estudantes – de todas as idades – primeiro tímidos, depois rasgando as comportas que os oprimiam há tanto, tanto tempo.

Nem de isso tinham consciência, mas por todo o lado, Calvário, Xabregas, Benfica, Algés, Arroios, Alfama, saíram ribeiros circulando rem ruas ontem vigiadas desaguando em rios no Carmo, espraiando-se pela Cidade, lavando-a do tom cinzento do medo. Era a Revolução.

Na corda bamba entre a Liberdade e a continuidade, os patibulares Salvadores Nacionais queriam outra coisa, mas não conseguiram. E os militares rebeldes, atónitos, viam a Cidade, as vilas as aldeias, a crescer de uma coisa estranha e tão presente, uma massa de actores que nunca tinham tentado, sequer, ter domínio das suas vidas.

A alegria cresceu, desmesuradamente em Maio, no seu Primeiro, ontem dia de luta de rua e medo nas casas. E as perguntas: que queremos nós das nossas vidas, que queremos nós do nosso país?

Os generais ainda tentaram tudo manter na «ordem». Mas a guerra que não queríamos não era já silenciada com “votos de Boas Festas e um Ano Novo cheio de «propriedades»”  e desfiles marciais com órfão de medalha ao peito. NÃO! Nem mais um só operário ou camponês para morrer numa guerra injusta lá longe, em África. África para os Africanos!Nem mais um só, soldado prás colónias!

E nas fábricas? Foi a natural caça ao bufo, a exigência colectiva de serem tratados como gente, o «baixar da grimpa» aos capatazes e chefes que se escudavam com a repressão e o medo da PIDE. Alguns distraídos, ainda tentaram remar contra a mará que estava a levantar.

Os pobres, nos bairros e nas gigantescas ilhas de barracas que circundavam as cidades, tomaram para si o que muitos deles construíram, ocuparam casas prédios, criaram creches e continuaram – sem medo da vinda da GNR – a sacar electricidade à CRGE para poder mudar um pouco as suas vidas.

Muitos artistas, escritores, pintores arquitectos passaram, alguns deles por breves momentos, a barreira  invisível que separava a «cultura» da pessoa comum.

E os aeroportos viram um inusitado vai e vêm. O Vai dos protegidos pelos 38 anos do Estado Novo, as famílias Espirito Santo, os Champalimaud, os Vinhas e Britos. Os Vem os Chunais, Soares, mas muitos outros, anónimos que deram o salto para a Europa que fez, tantos a tantos anos, de cega para este «jardim à beira mar plantado de viúvas e órfãos, e pobreza e prisões” porque o Botas colou-se à NATO na sua cruzada imperial.

Não tardou as «vozes de moderação», contra «as greves selvagens», amedrontado com o «regresso das forças fascistas».  E eis que o Governo aumenta o salário mínimo. Temos salvador… tropeção daqui e dali, o velho General a quer mandar, legionários e pides a reorganizarem-se , veio Setembro e as barricadas, veio Março e as nacionalizações, pelo meio quem trabalhava a terra a ocupá-la. A coisa pareceu tão certa que o TIMES clamava, horrorizado: «O Capitalismo Morreu em Portugal!». Não morreu mas levou uma sova do catano. Construíu-se então um salvador aliando o «povo» ao EMEFEÁ. O Povo está com EMFEAÁ.

A custo, os trabalhadores foram perdendo a ideia, que podiam construir, eles próprios, o futuro.

A sociedade polarizada, com a social-democracia a armar pides e legionários, Norte e Sul em crescente divisão, e naturalmente o partido da «ordem» a ganhar terreno no EMEFEÁ … Nove deram a cara, mas por detrás a Alemanha , os EUA, a CIA e os caceteiros do Rio Maior, a Maria da Fonte do Cónego Mello, as manobras do Carllucci que se tinha preparado no Chile de Allende para pôr no poder pelo massacre o tenebroso Pinochet .

Do outro lado, aprendendo a democracia, as Comissões de Trabalhadores, e de Moradores, o deliberado desrespeito pela «ordem» que queria repor os privilégios, a ânsia por um mundo novo. Deste lado, havia vontade e potencial , faltava lucidez e organização.

Estive lá , jovem deslumbrado, nunca neutro, nesta ancestral luta entre explorados e exploradores. Tantos que ao meu lado estavam e hoje fazem o seu mea culpa dos «excessos e anarqueriada» para justificar os ordenados chorudos as prebendas que desde então acumulam. Alguns no governo. Outros dirigentes das Associações patronais, outros ainda, tantos, que da Voz do Povo passaram a Voz do Dono …

Novembro chegou e ficámos em casa, confiando no futuro.  Mas, o futuro é agora.

Agora há que reinventar Abril dos bairros e empresas onde a democracia viveu.

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