Nota Prévia: Com o globo a ser atravessado por mensagens tão persistentes na glorificação de Nelson Mandela, quero relembrar, como o fizeram os meus camaradas do “Socialist Youth Movement”, da África do Sul que as convicções, políticas e práticas que acabam, em última análise, por ser a base das avaliações de cada um. Publicado originalmento no Linhas da Ira


À escala global assiste-se a uma gigantesca campanha de mitificação que torna quase intocável Nelson Mandela, um destacado líder do movimento de emancipação e libertação dos negros contra um dos regimes mais odiosos da segunda metade do Séc. XX, o regime do apartheid, regime esse que foi longa e coerentemente suportado pelo capitalismo internacional e o imperialismo.

Iniciando a sua luta política seguindo os métodos pacifistas de Ghandi, Mandela, como muitos outros líderes da libertação nacional da África, procurou, dentro do quadro legal da República Sul Africana, combater a discriminação racial imperante no seu país. Constatando a inutilidade dos apelos à Rainha de Inglaterra e dos juramentos de fidelidade ao Império, prática do ANC nos anos 40, Mandela e um pequeno grupo de activistas lança dentro do quadro legal da República Sul Africana, a acção de massas para combater essa discriminação. A Campanha do Desafio – seguindo, em parte, as técnicas de desobediência civil de Ghandi, envolveu as massas  durante os anos 50, período em que se consolidou o regime do apartheid.

É nesse período que se constrói a Carta da Liberdade, documento central da luta contra o apartheid, resultantes de milhares de contribuições de operários, camponeses, jovens e intelectuais comprometidos, que desde o início da década até ao Congresso do Povo, debatem e constroem este importante documento político.

Como outros líderes da libertação, confrontou-se com a brutalidade e violência do Estado e tirou a conclusão necessária: a necessidade de auto-defesa e de sabotagem do poder repressivo, a necessidade da luta armada para a libertação integral. É neste contexto que foi preso e condenado a prisão perpétua.

A sua prisão não pôs fim à luta pelo fim do regime do Apartheid, nem a luta contra a opressão e exploração das massas sul-africanas. Conjugada com a independência das ex-colónias portuguesas, Angola e Moçambique, a luta assumiu um carácter crescente durante o final da década de 70 e durante os anos 80.

A tentativa dos racistas sul-africanos de criar um protectorado no sul de Angola, – tomando parte ao lado da UNITA na guerra civil angolana – gorou-se na Batalha de Cuíto Cuanavale, a maior batalha travada em África desde a II Guerra Mundial, e acelerou o processo de libertação nacional da Namíbia.  

As perspetivas para o regime do “apartheid “ reduziam-se drasticamente.

O horror que escorria perante a iminente falência do brutal regime do Apartheid, levou as classes dominantes de muitas potências a procurar freneticamente uma solução que salvaguarda-se os interesses mais profundos das multinacionais que beneficiaram largamente do regime de terror racista e prepararam-se para continuar a usufruir dos recursos naturais da Africa do Sul.

Iria o ANC levar a cabo o seu programa socialista? Estariam as rendas e recursos espoliados pelas multinacionais em risco?

Com o crescimento da luta de massas interna, tornou-se evidente que o regime tinha de mudar.

A libertação de Mandela, mas mais do que isso, as negociações secretas durante a Codesa (Convenção por uma Africa do Sul Democrática) e realizadas com os dirigentes dos sectores mineiros e energético sul-africanos e representantes das multinacionais inglesas e norte-americanas durante as madrugadas no Ban Sul Africano para o Desenvolvimento, onde a Carta da Liberdade é rasgada e salvaguardados os interesses nacionais e internacionais do Capitalismo, são a tábua de salvação do Capital e o garante do actual “unanimismo” à volta de Mandela.

Na hora da morte de Nelson Mandela, o que celebram agora as classes dominantes  – incluindo o hipócrita Cavaco que levou o nosso país, em 1987, a isolar-se com os suspeitos do costume, os Estados Unidos da América, de Reagan, a Grã-Bretanha, de Thatcher, nos 3 únicos votos contra a um apelo da Assembleia Geral das Nações Unidas aprovado com 129 votos, para a libertação incondicional de Nelson Mandela –  é uma África do Sul que continua rendida às delícias de uma sociedade de explorados e exploradores, onde a burguesia negra e branca continua a massacrar, como em Marikana, e nas centenas de confrontações de classe que atravessam a África do Sul de hoje.

O percurso de Nelson Mandela, de pacifista na linha de Ghandi, a combatente fundador da Umkhonto we Sizwe – “Lança de uma Nação”, braço armado do Congresso Nacional Africano (ANC), na sequência do brutal massacre de Sharpeville, a sua longa prisão – a par de outras muitas e de muitos e muitos mortos legal e ilegalmente, pelo regime racista a “humanista” pela “paz e reconciliação”, é o percurso de muitos dirigentes dos movimentos de libertação nacional.

Afinal, respiram agora de alívio, a coisa correu “suavemente”: nas fileiras do ANC encontraram os seus Josés Eduardos do Santos que hoje substituem os títeres obsoletos do apartheid. Por isso, podem hoje celebrar o “terrorista” reconvertido.

Para as massas trabalhadoras sul-africanas a hora é de reconstruir, pela acção de massas, um programa político de libertação integral e de construírem uma voz politica independente que possa dar consequência à luta pela emancipação dos trabalhadores. Surgindo dessa necessidade, o Partido Socialista dos Trabalhadores, lançado pelos Comités de Greve Mineiros mas já adoptado por mutos outros sectores de explorados e da juventude, apresenta-se como uma alternativa socialista à barbárie de opressão e exploração que, 20 anos após o fim do apartheid, a direcção do ANC deliberadamente manteve contra os interesses das massas trabalhadoras do país.

Para os trabalhadores e jovens da África do Sul a jornada pela emancipação integral continua!

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