Reproduzo aqui um texto de uma amiga, Isabel Faria,  de lutas de alguma data.

O texto, partilhado no Facebook, trás-nos uma inquietação, uma impossibilidade quase que epidérmica, de não recordar-mos algo da nossa vida,mas mais que isso de imaginar o que nos querem reservar como futuro e estão a fazer a tantos de nós. Como dizia o canto: “Vemos, ouvimos e lê-mos… Não Podemos Ignorar”

Conta-nos a Isabel:

Quando o meu filho veio viver comigo (nos primeiros anos, foi impossível conciliar os meus horários com qualquer infantário (e dinheiro para o pagar) e ele ficava com os meus pais), vivíamos em Oeiras.
Nunca tivemos muito dinheiro, mas sempre foi dando para viver.
Um dia, inicio de um mês, dia 2 ou 3, a caminho do infantário,o meu filho pede-me para lhe comprar um Pokemon. Disse-lhe que não dava e que teria que esperar para o final do mês. “hiiii, falta tanto, mãe”. “Mas tem que ser João Pedro…”. O meu filho abanou com a cabeça que sim.

Ao final do dia, ia buscá – lo ao Castelinho, ali ao lado da linha de comboio de Paço de Arcos, e, algumas vezes, iamos a um pequeno mini-mercado mesmo ao lado de casa. Nesse dia, na manhã do Pokemon adiado, assim fizemos. Do outro lado da loja, meio escondido entre prateleiras, foi curto o tempo em que as prateleiras o esconderam (crescem tão depressa os nossos meninos), mas ainda escondiam, ouço a vozita do meu filho gritar “mãe, tu disseste que não havia leite…podemos comprar agora ou esperamos para o fim do mês?”. Perante o olhar incrédulo das nossas vizinhas, nos inícios dos anos 90 ainda havia classe média, disse-lhe que sim. Leite podíamos comprar. “Uma coisa inteira, mãe?”. Forte como os meninos são quando querem ajudar as suas mães, o meu filho pegou numa palete de pacotes de leite e colocou no cesto.

Hoje, ao almoço, fui ao Pingo Doce. Um menino, da idade que então o meu menino tinha, agarrado à mãe, perto da prateleira das bolachas pergunta-lhe se pode levar um pacote de bolacha Maria. Com olhar triste e voz baixa, a mãe diz-lhe que não. Hoje só podemos levar pão, Diogo. Talvez daqui a uns dias quando receber o subsidio…comes pãozinho, tá bem? O menino abanou com a cabeça que sim.
Mesmo sem querer. levada àquele final de tarde a Oeiras, olhei o cesto. Além de um pão pequeno, havia um pacote de leite.

Quanto tempo terá o Filipe que esperar por um Pokemon?

Isabel Faria via FB

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