É das leis da física – (desculpem lá os físicos  mas apenas pego na ideia geral): num dado sistema, os elementos que querem sair, ou correm por fora e arranjam forças para arrancar, ou se, deixam de correr, são engolidos pelo centro.

Um traço comum liga dois textos seus (“Realismo utópico”, Publico 29/9/2012 e “Rebelião e resistência organizada”, Publico 30/9//2012) recentemente publicados: A pugna por uma alternativa à austeridade e a ancoragem de toda e qualquer alternativa ao capitalismo. Socialismo? Não, republicanismo democrático.

Se no primeiro texto, cita à cabeça o pai da 3ª via e da viragem às opções neo-liberais de Blair, Antony Giddens, no segundo inicia o seu texto por uma apreciação genérica e implicitamente diminuidora do papel dos sindicatos.

Congresso Democrático das Alternativas – A via do meio entre o Capital e o Trabalho?

Compreende-se: se por um lado, reconhece a inevitabilidade da reformulação de alternativas face à hecatombe social que devasta Portugal e o Mundo, assusta-o e combate – a possibilidade do ideário Socialista reganhar apoios amplos,,-  não a elaborada versão kaustikiana , com os adequados aggionarmentos pós Segunda Guerra Mundial, mas o Socialismo que os velhos Marx e Engels apontavam e que se esboçou em tentativas, pelo Século XX –   numa “realidade utópica” que seguramente Giddens não suspeitaria.

Dai que há que celebrar a espontaneidade, os movimentos inorgânicos. Celebrar o Maio de 68 no seu carácter “expontenista ” das assembleias e acções de massas estudantis “sejam realistas, peçam o impossível”, mas que não seja o impossível dos 10 milhões operários que ocuparam as fábricas, criaram soviets – está bem, comissões de trabalhadores, enfrentaram a burocracia sindical e os centristas do PS – e forçaram DeGaulle a fugir de França.

E o seu receio do “extremismo” encontra o reflexo ‘aceitável’ de “reinventar o futuro com bases pragmáticas”. Dai o seu marcado preconceito contra “objectivos políticos estão claramente formatados pela orientação ideológica definidas por forças que se assumem como a ‘vanguarda’ do povo, mas que não apresentam qualquer alternativa de governo” (“ Rebelião…”).

É, no mínimo surpreendente esta formulação do reputado sociólogo. Dá-se o caso que não conhece as propostas do BE, do PC e… no caso mais marcante porque a ela se refere, da CGTP, nomeadamente as 4 medidas apresentadas pela Central sobre as alternativas ao roubo dos salários e pensões? Não se enquadram elas nas tais “bases pragmáticas “?

Mas é no segundo texto que vem à tona o seu real receio: sem mesmo perceber que aqueles de que tem medo à tanto tempo aceitam o status quo e agem nas águas da velha social-democracia, o sociólogo parece recear a entrada organizada e consciente da massa dos trabalhadores na acção politica.

Muito mais fácil e “não formatada” a acção exponteinista das classes médias que constatam horrorizadas que o Capitalismo necessita de as excluir e destruir para sobreviver.

Infelizmente, o problema é outro. A relativa rápida destruição do consenso centrista entre o liberalismo e a social-democracia, que começou com a crise petrolífera de 73-75, acelerou com o colapso do “socialismo real” e entrou em descontrolo com a crise económica capitalista iniciada em 2008, trouxe também, primeiramente de uma forma tímida mas, em passo acelerado nos últimos tempos, a entrada de novos sectores e segmentos sociais na procura de alternativas para a absoluta incapacidade do capitalismo de dar uma resposta cabal aos problemas que afectam a Humanidade.

Os receios implícitos – e manifestos noutras intervenções – acerca do “monolitismo” do “totalitarismo” – não têm em conta as transformações profundas que existiram durante o século passado. Se é verdade que o projecto socialista inaugural da Revolução Soviética foi – com a colaboração activa do capitalismo mundial, particularmente nas décadas de 20 e 30 com a colaboração na caça estalinista aos seus opositores revolucionários – esmagado por uma contra-revolução politica que retirou da acção politica de debate, controle e gestão as massas trabalhadoras e as concentrou numa elite burocrática, – ela deveu-se a factores concretos e objectivos num país devastado por guerras e economicamente atrasado que dificilmente hoje se poderiam reproduzir.

Mas a eficácia da planificação económica e da apropriação colectiva dos meios de produção ficou de tal forma demonstrada que, apesar das gritantes distorções resultantes da burocracia, conseguiu pelo menos melhorar, mesmo que temporariamente, as condições concretas de vida na URSS e nos países que adoptaram o seu modelo.

O colapso da URSS e dos regimes da Europa de Leste, a entrada em força no campo de relações capitalistas de produção da China, todo parecia reforçar a ideia que o Socialismo morreu.

Mas o capitalismo não está na tal boa saúde anunciada pelo “fim da história”. E o velho Socialismo ressurge, inorganicamente na busca de alternativas ao caos e à destruição que o capitalismo continua a alimentar.

Daí que, naturalmente, se reorganizam correntes, expressões, ideias, valores que á muito se julgavam extintos, como o da utopia Socialista. Mas como se aplicava à mulher de César, não basta sê-lo é necessário parece-lo” numa inversão das coisas com alguma ironia. Os nossos “socialistas” voltam a ser “republicanos e democráticos”, mas esconjuram tudo e todos contra o real perigo: a emergência de uma vaga consciência socialista, o lento mas necessário reagrupamento das forças anti-capitalistas que possam influenciar a sociedade a ir ao fundamento da coisa: a contradição entre a sociedade actual e a propriedade privada dos meios de produção, a contradição do desenvolvimento do conhecimento científico e técnico, que potencialmente pode alterar a configuração do Mundo, e o crescente caos da economia – e não apenas na sua vertente mais evidente, o sistema financeiro.

Hoje um projecto de Democracia Socialista estaria me grande grau facilitado – e atenção que digo apenas facilitado – pelas ferramentas de planificação, gestão e controlo que os avanços científicos e tecnológicos nos forneceram e por uma muito maior grau de instrução que, pese embora todas as barbaridade cometidas, as sociedades europeias detêm face ao brutal atraso cultural da Rússia de 1917.

Donde a dificuldade de repetição dos modelos “totalitários e monolíticos do “socialismo real”, mas o potencial enorme de uma real alternativa à actual crise: a Democracia Socialista.

A confluência da luta do Trabalho com os movimentos sociais assusta não só o Capital.

É neste sentido que se orientam, mesmo que de forma não explicita, muitos dos movimentos inorgânicos, mas também muitos dos actores no mundo do Trabalho que organizadamente resistem não apenas ao Governo e à austeridade, mas ao Capitalismo, seja ele “selvagem” ou “de rosto humano”.

Penso, como Elísio Estanque, que o velho B. Bretch tinha toda a razão ao dizer que  ” Toda a revolução começa em becos sem saída” . Exactamente. É por isso, exactamente por isso, que é necessário produzir uma via “moderada” , “espontânea”, que reinvente uma forma “de rosto humano” um tal “republicanismo democrático” que mantenha a sociedade do lucro.

Todas as épocas criam os seus centristas que procuram amarrar por fios aquilo que de desagrega.

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