Há tempos a esta parte cresce – ou pelo menos agita-se muito – a ideia que a solução dos nossos males sociais, económicos, politicos, culturais está nos “políticos“, que “são todos iguais“, que se “o Povo não votar eles aprendem“…

Quero, pois contar-vos uma história.

Em finais dos anos 60, andavam eu na Escola Preparatória Conde de Oeiras. Morava em Paço d’Arcos e ia de comboio até Oeiras.

Um dia, creio que foi num dia de Outono, mas não tenho a certeza, ao chegar à estação de Oeiras, descendo eu a rampa da passagem subteranea, dou de caras com um papel caido, com um desenho engraçado. Miudo, abaixo-me e apnho o papel. Nem tive tempo de o ver bem.

Um poderoso estalo surgiu do nada e um tipo cinquentão, forte que nem um touro, grita comigo: “Larga essa porcaria já!“.

Espantado, assustado, mas acima de tudo revoltado, fiz o contrário daquilo que os meus pais me ensinaram para as coisas do dia a dia, respondi ao sujeito: “Quem é o senhor? O meu pai não me bate…”

Novo valente estalo faz a minha cabeça bater na parede. As pessoas que passavam resmungam, na memória uma voz “Deixe lá o miúdo!” dito de forma contida, um tom abaixo do grito.

O “touro” virou-se para o grupo que descia da plataforma, alguém, creio que uma senhora, dá-me a mão e desce apressada a rampa. Em lágrimas cerro o punho da mão livre, o papel com o desenho guardado sem que me preceba.

Do episódio, ficou um “galo na testa” e o papel. Há tardinha, quando chegei a casa, pela primeira vez ouvi falar em “eleições“, em “ter cuidado quando se apanha esses papéis” e mais um ou outro tema que me marcaram a vida.

Depois veio o 25 de Abril, o 28 de Setembro, o 12 de Fevereiro, o 11 de Março… As pessoas comuns queriam ter o direoto de decidirem a sua vida, de escolherem, de mudarem, de ter dignidade na vida. Tinham ideias diferentes, meios diferentes de agirem, projectos que pareciam contraditórios. E havia, claro, os que queriam regressar a antes de Abril. Muitas vezes, a coisa acabava ao estalo. Outras, nem por isso…

Mas em Abril de 75, fui com os meu pais à Junta de Freguesia: pela primeira vez, com 54 e 52 anos, o meu pai, ferroviário, a minha mãe, doméstica, escolheram, votaram. Impressionou-me ver as lágrimas e o sorriso do meu pai ao sair da Junta.

Vitória, vitória, acabou a história.

Bem, não acabou. Agora, o discurso do “não votar“, do “são todos iguais” faz-me cada vez mais pensar no “touro“. Não me dá estalos, não me parte a cabeça. Mas abre campo para a justificação da supressão dos partidos, das eleições livres, da participação.

Não se revêem nos actuais partidos? Bem, é natural. Os partidos, tal como as pessoas, nascem, crescem, definham, morrem. Servem para representar interesses colectivos.  Está bem. Envolvam-se, discutam, organizem-se, partilhem ideias e propostas. Ajam.

Mas por favor, não fechem a porta à vossa própria Liberdade.

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