«o senhor é um Kerensky», disse Kissinger a Soares. «acredito na sua sinceridade, mas o senhor é ingénuo.»
«Com certeza que não quero ser um Kerensky», ripostou Soares.
«tão pouco queria Kerensky», respondeu Kissinger»

Citado, entre outros, no artigo de Carlos Cunha “O PCP e a Revolução de Abril – um pé dentro outro fora”, recensão do Livro “A Historia do PCP na Revolução dos Cravos”, de Raquel Varela

debate no 5dias.net http://5dias.net/2012/07/02/debate-serio/

 A vida é injusta e as apreciações feitas em cima de acontecimentos tão tumultuosos como processos revolucionários são necessáriamente imprecisas.

Acresce-se que as analogias na História são sempre problemáticas mas é como as bruxas “Não acredito nelas mas que as há, há”.

Posto isto e se quisermos especular, creio que Kissinger enganou-se no papel atribuído a Mário Soares na crise revolucionária de 74-75. Na verdade, com o distanciamento de quase 40 anos, dá para perceber que Mário Soares almejava a ser o conselheiro politico de um qualquer Kornilov que Kissinger y sus muchachos da CIA conseguissem preparar para que, com o apoio da Divisão Burnete e o apoio activo da NATO, colocasse ponto final à crise do Capital em Portugal e que ameaçava alastrar para Espanha e sei lá onde iria.

Como candidamente Soares já repetidamente reconheceu, estava preparado para a guerra civil, seguiria os passos, não do socialista Allende, mas do democrata-cristão Freire, no Chile de 73, em nome da “democracia ocidental”.

Tudo o resto a história dos vencedores acabou por escrever, como por exemplo, este mito de Soares ser o pai da democracia. A prova do bolo faz-se comendo e na altura da prova, Soares, estria disposto a uma nova ditadura para salvar a sua “economia livre e de mercado”. Soares, e também Kissinger, Helmut Shmidt, e tantos outros altos do Capitalismo, estavam cientes do equilíbrio da Real Politik e dos acordos de Yalta reconfirmados 1 ano antes em Malta por Nixon e Brejnev, O problema não seria o “expansionismo soviético” pelo menos aqui, neste canto da Europa.

O problema é que amplas massas populares operárias e urbanas entraram no palco dos acontecimentos e não pareciam querer voltar ordeiramente, aos caminhos da exploração, opressão e domínio do patronato sobre as suas vidas. Que fazer, portanto?

Ah pois, o “papão comunista” funcionava bem no Norte e Centro rural, com toda a máquina da hierarquia católica de braço dado com os maçons republicanos, os ex-pides e legionários e o generalado fascistas que o processo revolucionário tão – e aqui sim – ingenuamente, manteve em centros nevrálgicos do poder.

Enquanto isso, no aparelho de estado, os governos provisórios navegavam à bolina, enquanto que o PCP se via dilacerado entre o pragmatismo do núcleo duro – aceitação táctica da Real Politik e portanto, travagem ou minimização dos danos ao Capitalismo da crise – e as bases que várias vezes, por nítido instinto de classe avançavam mais além do que era “possível “ dentro do realismo.

O PS não produziu um Allende, mas na prática, o Karensky não foi Soares. Tivemos o nosso Karensky? Ah, lá isso tivemos. Mas ele não o foi.

Só que essa verdade é muito dura de ser reconhecida.

E a injustiça continua…

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