Chegou, esguio, desengonçado, com o à vontade de um conhecedor do mundo, e sentou-se frente à mulher. O comboio acabara de partir do Pinhal Novo.

Na mão um telemóvel barato, que manipulava nervosamente e lhe servira de pretexto para chegar:

Este telemóvel estava colado num banco no Pinhal Novo… Veio um homem e tentou tirá-lo… desistiu…” – equilibra o telemóvel no braço o banco o comboio. Este cai, apanha-o e, sempre a olhar para a mulher, desfia a história, como se um filme se trata-se…

A mulher, uma bonita mulher nos seus quarenta, cabelo negro com raízes cinza, vestida de negro, um discreto colar prateado atenuando o luto, olha-o, a principio com surpresa e fastio, mas os olhos vivazes o miúdo cantivam-na, tal como a sua voz um tudo nada gaiata, um tudo nada dura, primeiro desconcentrou-me da leitura o jornal, depois agarrou-me à narrativa.

Confesso que primeiro julguei que eram mãe e filho. Entendi rapidamente que não, mas julguei-os conhecidos. Nada disso, conheciam-se tanto, como eu a mulher ou ele a nós.

O telefone caiu mais uma e outra vez enquanto que o garoto fazia planos, depois de ter explicado que “… vai eu, zás, arranquei-o…” mostra o telemóvel, sem pingo de marca de cola mas com o écran quebrado.

Vou arranjá-lo. Tenho outro, um Nokia, este é Simens… vou arranjá-lo..” Depois, recorda-se “Ah, e tenho um LG que me deu o meu pai… Vou arranjá-lo e vende-lo. …Tenho jeito para essas coisas… Para que quero eu 3 telemóveis, não é?” pergunta, como que ansioso, à mulher, a esta altura já rendida à personalidade viva e paradoxalmente tímida do rapaz.

És do Pinhal Novo?” pergunta a mulher tirando os óculos escuros e revelando uns olhos veres, luminosos.

Ná, vivo em …, com a minha professora…”

Estranha resposta, invulgar.

O miúdo saltara do telemóvel para sua vida. Confessa abertamente que se “portava mal, andava sempre ao barulho, à porrada”. O cabelo negro e arrepiado, a tez escura reforçavam uma ideia e garoto selvagem, tal como o seu discurso, rápido, vivo.

…passei para o 5º ano” diz com orgulho.

Que idade tens?” pergunta a mulher.

Quinze”. E ultrapassa o pormenor, reconta a sua vitória à pouco anunciada: “…acho que passei para o a ano, a professora apertou comigo…”

Notava-se um carinho e respeito escondido nos modos bruscos e tom que se queria duro. Guardou finalmente o telemóvel.

Eles queriam meter-me num colégio interno, mas agora já não reajo…” e avisa “… a não ser que se metam comigo…”

E continua a sua peregrinação:

Na escola andavam sempre a chatear-me. A mim e ao meu primo. Vivíamos no campo, não tínhamos casa de banho, mas lavávamo-nos… todos os dias, …lá nos arranjávamos” um tom de mágoa e revolta “mas na escola chamavam-nos nomes e queriam que nos lavássemos outra vez…”

O tio tinha mandado a professora “lavar a …” e ameaçado-a com a morte tirassem o filho.

“Achas bem?” pergunta a mulher, numa voz baixa e afectuosa, como um sussurro

“Não, mas a outra é que começou…” justifica em tom de desafio.

O pai, como o tio, não deixou interná-lo mas o padrasto aceitou que ele fosse viver com a professora. Preceder-se agora porque “vive com uma professora”.

Uma chinesa acusou-me de roubar…” diz ele e saca novamente o telemóvel entretendo-se a olhar o écran rachado. “É sempre assim… sempre que há confusão sou o culpado…”

“Agora já consigo ler e escrever!” ergue a cabeça, olha a mulher anuncia subitamente como uma nova vitória que tem de partilhar. “Dantes não…, nem ler nem escrever…”

Chega o revisor, olha-o com ar feroz, saca dos calções largos o bilhete e sorri.

A minha mão tem epilepsia, o meu padrasto passou-se com ela, e ela teve um ataque…

Nem eu nem a mulher entendemos logo porque ele disse isso. Os olhos eles, tão vivazes, escurecem quando fala da mãe. Antevemos a violência doméstica.

Levanta-se, olha pela primeira vez para mim.

Fico aqui. Daqui ao Pinhal Novo conheço tudo!”

Foi a mim que me disse, como que a desafiar-me, a avisar-me.

Mas acabando o aviso, sorriu, com um ar gaiato.

Saiu esguio, desengonçado, com o à vontade de um conhecedor do mundo…

Eu e a mulher cruzámos os olhares… Tanta carência de ser escutado. Contou-nos a sua vida, ali, simples e dura. Os seus sonhos, revoltas. Porque sim!

Não seremos todos um pouco como um rapaz do comboio?

9 de Setembro de 2010
Vivido no comboio entre o Pinhal Novo e o Barreiro
Escrito nas travessias entre o Barreiro e Lisboa

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