Ao  ser “provocado” pela Fernanda Guadalupe

Direi que te entendo, mas é uma forma de dizer que nada sei de construção ou desconstrução de cidades.
Sei que também eu, novinho, sonhava com florestas. Eram florestas longínquas onde se degladiavam os ‘bons‘ e os ‘maus‘. Como nas pradarias da minha meninice os cow-boys batiam aos tiros as flechas dos índios. Quando a subida dos degraus da vida me deu para perguntar porquê, dei comigo a sentir que tomava partido ao contrário do que me diziam os filmes, os telejornais e quase todos os amigos.

O meu pai, homem da arte de trabalhar madeira, entre silêncios pensativos e rasgados sorrisos, ensinou-me a perguntar o porquê das coisas. Para ele, a terrível idade dos porquês, foi, imagino, um constante gozo e desafio. E ao ensinar-me a pensar o porquê das coisas, ensinou-me com a sua arte, a fazer ou, pelo menos, tentar.

Essas foram dádivas grandiosas, como são todas as coisas que os pais partilham com os filhos.

Algumas vezes, aprendi cedo, as perguntas são incómodas. Outras, aprendi mais tarde, não têm resposta senão o constante desafio de as procurar.

Foi então que um dia, tinha para aí 12 ou 13 anos, descobri que a floresta longínqua com que sonhava, seriam as matas da Guiné ou as selvas da Indochina.

Foi-me fácil admirar os vietcongs: quando apareciam, fugidios, na TV, eram pequeninos – como eu – e tinham armas quase que a brincar – como as que costumava brincar em criança.

Difícil foi escolher o lado em que queria estar nas matas da Guiné, ou nas savanas de Angola, ou nas terras de Moçambique. Quem lá estava eram eles e os nossos. E via os nossos nos Natais, “Soldado nº190082-71 deseja aos seus pais, irmãos tios e primos uma Feliz Natal e um Ano Novo cheio de propriedades”, e os 10 de Junho, “Medalha da Cruz de Cristo de 1º classe atribuída ao Furriel Miliciano António” e avançava um menino, de calções para um grupo de Generais e tocava o clarim…”.
Os meus índios perdiam-se nesta batalha entre o que me era dito e os porquês que ninguém me queria responder…

Felizmente, tive o privilégio de viver a mudança, onde as coisas perguntadas, já não o eram a medo, onde todos procuravam respostas, onde o anónimo suspeitou que algo de impensável poderia fazer-se se o anónimo, saísse do anonimato, pensa-se em voz alta, procurasse parceiros.

Por algum tempo, cada um foi actor de um drama que se desenrola desde a idade das eras, mas apenas por breves lampejos, a multidão participa.

E lancei-me, sem reservas, na tentativa do fazer.

Outros tempos vieram, e a diáfana teia do dia-a-dia, remeteu ao anonimato as pessoas, reerguendo as elites aos seus lugares.

Muitos dos que perguntavam o porquê, passaram a doutrinar “Porque sim!”.

Mas a maioria esqueceu que pode – e deve – perguntar o porquê…

Muitos do que queriam fazer, passaram a defender o manter, o regressar.

Eu, com muitos outros, continuámos a tentar fazer, contra-corrente, desesperámos, tentámos, falhámos, e até hoje, desesperamos, tentamos, falhamos…

E os dias decorreram entre os “dias loucos” e o “fim da história” e aqui estamos à beira do quê?

As certezas de ontem são a miséria que se espalha hoje, mas mostram-nos como xamãs os que deliberadamente nos fizeram percorrer o caminho até aqui.

É nestas altura que procuro partilhar as dádivas que recebi de meu pai: perguntar porquê e tentar fazer.

Hoje, sei que há perguntas que ainda requerem tempo…
Mas tempo é ainda o que tenho…

Por isso, apesar de nada saber de construção ou desconstrução de cidades, creio que te entendo…

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