Feroz devorador das formas para além das coisas, tive hoje oportunidade de escutar o debate sobre a crise do sistema político entre candidatos às próximas legislativas.

Não me apetece fazer deste blog um panfleto político. Outro espaço encontrarei para esse debate, mas uma frase dita por um hipotético futuro governante ficou-me a bailar na cabeça.
Foi numa comparação entre o 25 de Abril e os dias de hoje e rezou mais ou menos assim:

“No 25 de Abril as pessoas estavam ávidas de ouvir os políticos, hoje desconfiam”

Eu até era miúdo nessa altura. Tinha para aí 15 anos mal medidos. Mas a verdade é que a segunda metade dos anos 70 moldou parte importante do que sou hoje,

E é mesmo por isso que fiquei com a impressão que o responsável político que pensa desta maneira conheceu mal esse período.

Na verdade ele até é uns anitos mais novo que eu e a memória que tem desse período é necessariamente diferente da minha.

Contudo dispõe de abundante material bibliográfico e documental que lhe permitiria não fazer uma apreciação tão linear e apressada de um período tão fundamental da construção do sistema político que nos governa.

Sei bem que o que irei dizer é fruto de uma apreciação subjectiva da história, mas creio que poderá ser objectivada pela consulta, por exemplo, do excelente acervo do Centro de Documentação 25 de Abril, ou no livro, seguramente pouco divulgado, mas com uma primeira parte composta de depoimentos directos de intervenientes directos na coisa pública da altura, e que tem o título “O Futuro Era Agora” .

Creio que as pessoas não estavam ávidas de ouvir os políticos. Naquele período, as pessoas estavam ávidas de serem protagonistas dos seus destinos. E claro, queriam saber o que os partidos políticos pensavam, e propunham, e sobretudo, como agiam.

Essa diferença, que aparentemente é subtil, tenho para mim que é determinante.

A política era algo do quotidiano das pessoas porque directamente ligada aos seus sentimentos, aspirações e anseios.

A chamada normalização democrática, que acabou com a “anarquia”, essa sim começou a criar a separação das pessoas comuns da política.

“A minha política é o futebol” reentrou, com pézinhos de lã, no senso comum popular.
Fortemente alimentada pelos que, por diversos motivos, se assustavam com a perspectiva de homens, mulheres e jovens comuns pudessem debater, decidir e agir de forma consentânea à sua visão das coisas.

Demorou tempo, mas lá apareceu o discurso contra a “classe política” e lá se foi generalizando a ideia que os “políticos” são todos iguais. Recordo que uma das mais “duras” críticas ao estabelecimento do Serviço Nacional de Saúde, feita exactamente por aqueles que fingem clamar contra a “classe política”, era que o Ministro da altura tinha sido um electricista. Claro que na altura estavam do lado da “classe dos barões da medicina” e agora ao lado da “classe dos grandes grupos financeiros e seguradoras” com interesses na transformação da saúde numa mercadoria.

Os que comandam verdadeiramente as coisas agradecem reconhecidos que os partidos, especialmente aqueles que mantêm uma visão alternativa de sociedade, alinhassem pelo diapasão ao sonegarem formação e educação política primariamente aos seus membros e no seu conjunto à sociedade.

E assim vamos, uns “cantando e rindo” outros a vibrar com os futebóis, e ainda outros tentando ir pondo pauzinhos na engrenagem.

Cá para mim, há riachos que começam em fios e acabam em torrentes. Abril foi a torrente de muitos riachos. Vinte e muitos anos de “realismo” secaram muitos desses riachos. Mas como a vida não para e os sentimentos, anseios e aspirações, sendo ao mesmo tempo os mesmos e novos, outros riachos estão-se a formar.

Que acabarão em torrente.

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