Acabei de ler o texto de opinião da jornalista Graça Franco intitulado “Eu tenho uma filha” publicado no Público de hoje.
A certa altura da sua crónica Graça Franco diz:

“é sim crime não concentrar todos os esforços em combater as questões que estão na raiz dos verdadeiros problemas nacionais e que, infelizmente, continuam na base do sofrimento de muitas das mulheres incapazes de encontrarem alternativas a abortar. Opção muitas vezes forçada por uma série de condicionalismos de que acabam por ser vítimas. Combatê-los podia ser útil, positivo e mobilizador. A começar na luta contra a nova tortura e velha violência doméstica, contra a desresponsabilização dos respectivos parceiros no planeamento familiar, contra a pobreza gritante, o desemprego indesejado, e a falta de informação sobre a prevenção de uma gravidez indesejável, acabando na luta contra os preconceitos sociais legitimados por “receios” e “estigmas” profundamente hipócritas.”


Perfeitamente de acordo. Esqueceu-se Graça Franco que é precisamente a política que o Paulinho das Feiras, agora transformado em “grande estadista”, do seu amigo Bagão e dos seus correlegionários no Governo, no Estado e nas empresas que criam os verdadeiros problemas nacionais, agravam-nos, reproduzem-os, amplificam-os.

Também eu tenho uma filha e um filho.

O que sei, o que sinto, é que a nenhum deles está a ser permitido ver um futuro de dignidade, onde a esmagadora maioria dos homens e mulheres não sejam meras peças humanas de máquinas, que outros homens e mulheres dispõem para acumularem lucros e qualidade de vida, que aos meus filhos e a mim nos vão sendo retirados: direitos sociais, económicos, culturais e, pelo andar da carruagem, políticos os quais eu ontem tive, hoje começo a perder e amanhã, provavelmente juntamente com os meus filhos, não terei.
Desconfio que isso não é problema que se ponha aos seus descendentes. Pelo menos por agora. É que, sabe, isso da Família é como a questão do Cidadão.

O banqueiro e o calceteiro são ambos cidadãos. Um dispõe da vida de milhares, manuseia o poder económico, dá ordens ao Estado, enquanto o outro apenas dispõe da sua força de trabalho.
Paulo Portas e os seus correlegionários optam pela criminalização da interrupção voluntária da gravidez, como optam pela criminalização dos desempregados, como optam pela criminalização dos excluídos, como optam pela criminalização da opinião oposta – “radical”, “neo-fascista de esquerda” nas palavras do extremista neoliberal e católico Bagão.
No seu íntimo, tal como dizia o Zeca:

“Se o Pinochet cá mandasse,
Já em Fátima haveriam,
Mais de cem mil vermelhos
A arder de noite e dia”

São eles que levam a exploração do trabalho ao limite, que privam as famílias trabalhadoras de condições materiais de disporem de tempo para os seus filhos, que condenam jovens casais a evitar terem filhos porque os não podem sustentar com salários de miséria, nem com uma saúde privatizada, nem com apoios de estado garantidos aos grandes grupos económico e negados à maioria do nosso povo.

Falou como mãe, falo-lhe como pai. Pai que assume a sua co-responsabilização no futuro que deixarei aos meus filhos.

Fala em hipocrisia: como jornalista já investigou a sério as clínicas discretas onde a IVG se faz para as elites do país? Talvez, se o fizer – se o quiser fazer – vá lá encontrar alguns desses doutores que, em nome do juramento de Hipócrates, se recusam a fazer IVG os hospitais públicos a mulheres comuns mas que “compreendem” o drama e embaraço social de algumas “socialites” que se esqueceram de fazer sexo seguro.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s