É verdade. Vou partir para o Sul. Quatro décadas e meia a Norte do Tejo, salto agora para o além Tejo mas antes de chegar lá, entre Tejo e Sado fico.
Nunca vivi tão a Sul.

Vivi a infância junto ao rio, em Paço d’Arcos, ainda antes do betão começar a roer as fartas terras da zona e a espalhar-se – qual nódoa viscosa – pela suaves colinas da minha velha Vila.
Vivia mesmo à beira da linha férrea onde o meu pai e o meu tio trabalhavam coma profissão que antes deles, o meu avô e seu irmão tinham: carpinteiros.
A minha terra tinha um coreto. E um ringue de patinagem no Jardim. Ainda estão lá mas já não parecem os mesmos. Não se assustem, foram os anos que passaram por mim.
Muito cedo começei a usar a linha. Primeiro para Oeiras, mais tarde, em direcção ao Alto de Santo Amaro, sobranceiro a Belém. Mas ia de comboio até Alcântara

—– * —–

Um dia, cortei as asas com o ninho e parti para o Norte. Acolheu-me a Ramada, já na altura um subúrbio como tantos outros, este encostado à velha Odivelas.

Mas como “só estava bem, aonde não estava, e só queria ir aonde não ia” fui depois para Benfica, bem no cerne de uma Cidade que esquecia que temos de respirar e, ao tempo, nos barrava o caminho a Monsanto, com a linha de Sintra, apenas remetendo ao seu seio os presos e seus guardas, as tropas, o ghetto do Bairro da “Boavista” e a triste sina das prostitutas.

Calcorreei, depois, a Calçada do Combro e o Bairro Alto foi o meu porto de abrigo para a mágoa de estar só.

Voltei as costas a Lisboa, parei nas Mercês, junto à Tapada que alguém dizia ter havido gamos quando eu usava calções. Então, e hoje ainda mais, uma incrível floresta de betão encafua milhares sobre milhares, atirados para a periferia do cimento, para umas horas de sono e pouco espaço para o sonho.
Durante 8 anos olhei, do outro lado da linha, aquele horizonte desigual. Nas minhas costas ficava a Serra mas quase não dava por ela.

Sai de lá, com o coração triste. Marginei o Bairro 2 de Maio, às Portas de Benfica. A alegria e o desespero de ser estrangeiro na nossa terra via-a espelhada nos rostos dos seus habitantes. Aguentei pouco tempo o jogo em espiral do desespero de uma juventude sem horizontes e força de “ordem” que geravam a revolta.

Cruzei a linha férrea – uma quase constante na minha vida – esperei algum tempo na Cova da Moura.

Quis o destino, e uns gatos, o meu regresso às lides diárias ferroviárias: Serra das Minas, outro aglomerado dormitório, este com um pouco mais de relvado, tem sido a minha terra nos últimos anos. A Serra, fila para além do horizonte formatado pela aberração que é a Printer Portuguesa. Se não se consentisse tamanhos atentados à paisagem, da minha janela veria o perfil surpreendente da Serra da Lua, como os mais antigos chamavam àquele encantador e misteriosos monte e o estranho Castelo da Pena.

Agora, salto o Tejo, não chego ao Sado. Fico-me pelo Pinhal Novo. Uma planura para quem subiu e desceu sempre nas terras onde arribou.
Mais uma vez, terra de ferroviários…

Desta feita, cruzarei de comboio o rio da minha infância.
Quero que a Clarinha tenha uma terra que possa chamar sua. A Ana quer ter tempo para viver. Também eu quero sentir, novamente, uma terra como minha. Por isso, vou-me embora, vou partir… mas cá estarei.

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