Hoje quis-se fazer crer que 3 minutos de silêncio resolvem o drama do Índico.

Na verdade, apenas os poderosos quiseram copiar algo impossível de reproduzir, o silêncio por Timor, porque esse gesto e sentimento transbordou de uma única certeza: há que fazer algo.

A dantesca dimensão do terramoto na Sumatra e dos tsunamis a devastarem os probissimos países do Indico mantêm essa certeza: há que fazer algo.

Mas, a cada dia que passa, quando os fragmentos das coisas começam a colar num quadro mais completo, inevitavelmente ergue-se a questão: porquê?

Porque não era inevitável que mais de uma centena de milhar de vidas, quase metade delas crianças, fossem tragadas pelas ondas de porto.

Porque custaría apenas 2 milhões de dólares a instalação , em cada um desses países, de sistemas de alarme prévio contra este fenómeno destruidor mas… previsível.

Porque a hipocrisia continua a cavalgar nos massacres que a ganância tece: na Tailândia não houve aviso de tsunami com medo de prejudicar a industria do turismo. A industria desapareceu, os seus trabalhadores, os seus filhos e os seus turistas.

Porque os que “correm” à ajuda humanitária de emergência e choram lágrimas de crocodilo, são os mesmos que insistem no pagamento da dívida a países que não respondem às necessidades básicas dos seus naturais mas paguem religiosamente as dividas que foram obrigados a contrair para os seus povos sobreviverem.

E serão os mesmos que irão disputar violentamente a reconstrução dos resort e spa nas praias paradisíacas onde despejam temporariamente elementos da classe me´dia europeia, tal como despejam no Algarve trabalhadores do Norte da Europa.

Porque a solidariedade das gentes comuns, entre nacionais e turistas, entre cingaleses e tamils no Sri Lanka devastado por uma guerra civil interminável, entre cristãos, hindus, muçulmanos e budistas em Tamil Nadu, asm também na Austrália, na Suécia, mesmo no nosso país – conjuntamente com o voluntarismo e abnegação de muitas ONGs – ultrapassa em muito a solidariedade dos governos e das instituições poderosas.

No Reino Unido 200 milhões de euros foram recolhidos em poucos dias. Pouco? Dez vezes mais do que custa um sistema de detecção prévia de maremotos!

A TMN ofereçeu 5000 euros – 1000 contos . Seguramente que mandando um SMS a 1 € dez, cem vezes ais vai ser recolhido.

22 países do mundo mais um banco mundial vão enviar €1,5 biliões para as áreas atingidas. Muito?

Os EUA, que iram enviar cerca de €350 milhões gastam 4 biliões de € na ocupação militar do Iraque.

O Banco Mundial irá enviar cerca de 180 milhões de dólares. Cerca de 1/10 da dívida externa conjunta da indonésia, Tailândia, Bengladesh, Índia, Sri-Lanka e Somália.

Por isso se calam os poderosos. A idea subitamente caiu no limbo não fossem as pessoas nas ruas começarem a perguntar. Porquê?

Aqui a culpa não pode morrer solteira, nem deixada nas mãos de deuses ou diabos.

Temos de conhecer os culpados e aprender em conjunto o que fazer para que não se percam novamente centenas de milhares de vidas tão brutalmente.

Dizia um dignitário cristão fundamentalista australiano que os tsunami foram o castigo de Deus pela imoralidade

Comenta piedosamente José Manuel Fernandes contra o optimismo de Rosseau acusando a natureza humana.( “Do Melhor e do Pior”, in Publico, editorial de 4/1/2004

Como outros o fizeram antes de mim, e outros muitos mais irão chegar a essa conclusão, não é a natureza humana a responsável pela guerra, a fome, a pobreza, a ganância que neste caso levou à morte centenas de milhares, feriu meio milhão, colocou numa mais profunda miséria e no desespero milhões.

É sim uma sociedade onde o valor supremo é o lucro, a virtude proclamada é o ter mais e melhor que os outros, a qualidade desejada é a impiedade para pisar os que estão no chão e os que caiem.

E isso, isso tem de mudar!

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